A Velha, por Paulo Bogler

Não há maior transgressão em um país pobre e excludente do que envelhecer. Insistir, teimosamente, até o último instante e não se entregar. Ficar velho, pele flácida, fala torta, pernas emaranhadas.  Disseminar a lembrança entre pessoas sem memória.

Envelhecer por convicção e com convicção. Dalva do Nascimento, 92 anos de nascimento, surgiu ao mundo mineira, mas foi-se embora fazer a vida no Distrito Federal, ainda na década de sessenta.

Preta, pobre e comunista, tem cerca de oito décadas dedicadas à utopia do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão. Nestas eleições, Dalva é a candidata mais idosa do país, concorrendo à suplência do senado.

Rebeldia por sobreviver. Ousadia por manter-se fiel à suas posições ideológicas em um país onde a coerência e a fidelidade política não resistem aos primeiros afagos das benesses, gentilezas e boa vida oferecidas pelo poder.

Dalva, além de cumprir uma tarefa delegada por seu partido, é candidata para ” mostrar aos brasileiros, para mostrar o nacionalismo, para mostrar a brasilidade”. E completa, com autoridade nonagenária: “para dar um susto na direita”.

A comunista, descendente de escravos, é provável, não irá oferecer nenhum medo aos seus concorrentes, candidatos convencionais que vão às urnas embalados pelo poder econômico, pelo compadrio de alguns governos e pela estrutura de feudos, renitências do Brasil republicano.

Enumerasse, em seu guia eleitoral, a dignidade como principal virtude e primeira exigência para a cidadania, Dalva provavelmente assustaria todas as classes, pobres e ricos, tão acostumados a dizer amém. 

(*) Paulo Bogler é agente cultural, diretor da Associação Guatá (www.guata.com.br), em Foz do Iguaçu, Pr.

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