Bento XVI: em nome Pai

PCB Paraná 19 de fevereiro de 2013 Comentários
Bento XVI: em nome Pai

Claudio Reis

A surpreendente declaração de renuncia do dirigente máximo da Igreja Católica, Bento XVI, tornou-se o centro de inúmeros debates mundo afora. E apesar das informações que chegam das diversas partes e fontes, muitos pontos ainda parecem obscuros. Como se é de esperar, parte significativa da imprensa caminhará para uma abordagem superficial, ressaltando pequenos detalhes, intrigas mesquinhas presentes nos corredores do Vaticano. Quanto a isso, pouca novidade.

Há de se fazer, porém, algumas reflexões que tentem acompanhar os aspectos de grande alcance de tal fato. Tudo indica que a renuncia do Papa não é apenas algo de raríssimo exemplo na história do catolicismo, mas um fato que indica uma crise profunda na velha instituição. Uma rápida olhada na história da Igreja de Roma basta para se verificar os enormes conflitos e rachas internos. O mais conhecido, claro, é a Reforma Protestante. Portanto, não seria absurdo nenhum dizer que estamos diante de algo muito semelhante.

Bento XVI não é considerado somente um conservador, pois também é visto como um grande teólogo da Igreja e do cristianismo. Característica bastante diferente de João Paulo II, muito mais voltado à militância. Este último, conseguiu, por suas particularidades, manter certa unidade no interior da Igreja. Unidade esta que não tem no interior dos Cardeais, seu aspecto fundamental, mas na relação destes com o povo. João Paulo II desempenhou muito bem o papel de manutenção de uma coesão entre o alto clero e as massas católicas. Sua linguagem, sua ação política (atuante anti-comunista) e proximidade com os povos do Império Cosmopolita Cristão, segurou as inúmeras pressões vindas de baixo.

Para muitos, o grande movimento laico que o Vaticano teve de enfrentar, em sua história, fora aquele construído pelas revoluções burguesas. Acontece que essa luta não se deu somente nos âmbitos políticos e econômicos, mas também no científico. E nem, muito menos, são peças do passado, afinal os seus desdobramentos ainda estão sendo sentidos. Na dimensão específica da ciência, os impactos foram decisivos principalmente a partir do século XX.

Até este século, a cúpula da Igreja ainda tinha como manter as massas católicas com uma relativa tranquilidade na esfera do misticismo mais ingênuo, ainda que nos altos postos predominassem uma forma sofisticada e erudita dos ensinamentos. Fazendo, pelo alto, as absorções das grandes inovações filosóficas e científicas, sem, porém, colocar em risco a fé do povo. No entanto, a partir do século XX, esse cenário histórico altera profundamente. Nos últimos 100 anos, os avanços das ciências naturais, com seus cada vez mais sofisticados laboratórios; a criação de inúmeras técnicas no âmbito da medicina e da genética, desafiando mais e mais os ordenamentos religiosos; o surgimento de poderosas indústrias da saúde, movimentando montantes crescentes de recursos financeiros; e claro, uma monumental expansão dos meios de comunicação de massa; feriram o centro do Catolicismo.

É graças a uma ciência cada vez mais difusa na sociedade, de cima a baixo, que se tornou insustentável algumas declarações do alto clero romano. Para as massas católicas já não é possível admitir o não uso de técnicas contraceptivas, seja para o controle da natalidade, seja para a não contaminação de doenças transmitidas pelas relações sexuais. Diferentemente de séculos passados, essas inovações não são mais absorvidas e controladas pelo alto para, em seguida, serem traduzidas para os de baixo; agora não há como evitar o contato direto e diário dessas conquistas pelas massas. Bento XVI sinalizou claramente esse processo em suas últimas declarações. Em seu comunicado de renuncia o Papa diz: “no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.” (http://oglobo.globo.com/mundo/a-integra-do-anuncio-de-renuncia-de-bento-xvi-7550547 ) Portanto, o reconhecimento dessas alterações profundas no cotidiano dos cristãos católicos, parece evidente nas palavras de Bento XVI. E obviamente que para esse enfrentamento é necessário certo vigor físico, porém, o fundamental é a energia política.

As consequências do novo cenário histórico é o aprofundamento do movimento, já em curso, de uma forte cisão entre o catolicismo característico dos Cardeais e aquele do povo. Para visualizar tal processo, basta acompanhar o crescimento das seitas protestantes, intenso nos países de forte tradição católica. Numa declaração posterior o Papa afirmou que a “unidade da Igreja está em perigo”. (http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/02/papa-bento-xvi-condena-divisao-na-igreja-catolica-e-hipocrisia-religiosa.html) Perigo presente no alto clero, mais pelo seu divórcio em relação às massas de féis, do que por motivos de cúpula.

Bento XVI, após tentativas fracassadas, percebeu que neste momento o comando do Vaticano precisa de um militante, não de um teórico. E a questão central não é ser ou não ser conservador, mas ter a característica de um homem de ação, isto é, de um político. Somente isso poderá minimizar o processo de cisão em curso.

Quando ele fala sobre “hipocrisia religiosa” está sinalizando justamente no sentido de demonstrar que o que está em jogo não é o conservadorismo, pois a maioria de seus subordinados mais próximos tem esta perspectiva.

De qualquer forma e à sua maneira, Bento XVI sai do papado fazendo a grande política, sacrificando o poder temporal pelo espiritual – ainda que o contrário apareça como mais plausível. A história da Igreja de Roma certamente o absolverá – por essa sua tentativa desesperada e provavelmente sem muita eficácia, mas que busca minimizar a crise vaticana – e, após sua morte, o tornará Santo.

Claudio Reis é cientista político.