Em Foz, Ivan Pinheiro declara: “Queremos uma frente de esquerda anticapitalista”

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“O que a gente precisa não é de um partido grande, nem inchado, nem bobo”
A reportagem do Megafone bateu um papo com candidato a presidente da República pelo Partido Comunista Brasileiro, Ivan Pinheiro. Secretário-geral do PCB, o militante aproveitou os minutos antecedentes desta conversa para conhecer a ideia do projeto do Megafone, de buscar fazer uma comunicação mais democrática e próxima dos anseios da comunidade.
Num diálogo descontraído, Ivan Pinheiro fez uma análise da conjuntura política, econômica, cultural e eleitoral do país. Com propriedade, teceu sérias críticas à direita brasileira e não poupou o atual governo. Ivan comentou também a atuação da esquerda no Brasil e apontou para uma Frente Anticapitalista e Anti-imperialista. Confira a entrevista na íntegra.
 Megafone – Olá Ivan. Tudo bom? Para começarmos a conversa, quais são as pretensões do PCB (Partido Comunista Brasileiro) nestas eleições?Ivan Pinheiro – Não são eleitorais. Nossa candidatura não tem condições de ir para o segundo turno. Mas nem por isso deixamos de ter a candidatura.  Primeiro porque o nosso objetivo não era ter uma candidatura própria. Era criar uma grande frente de esquerda. Não conseguimos. Nos esforçamos muito. Foi cada um pra cada lado. Houve uma fragmentação muito grande e nós também colocamos nossa candidatura.

Megafone – A que se deve essa fragmentação?

Ivan – Ela tem a ver com o fato de que a esquerda no Brasil teve primeiro uma grande divisão: que foi o governo Lula. Hoje você tem duas esquerdas: a esquerda oficial, que apoia Lula, que é PT e PCdoB, e a esquerda que faz oposição a Lula. Mas mesmo essa esquerda que faz oposição a Lula ela é dividida em função de leituras da realidade e de visão do mundo. Nós estamos procurando uma unidade de ação, não precisamos pensar igual, precisamos agir igual.


Megafone – Neste mesmo mote, da dificuldade para fazer a coligação com os 3 ou 4 partidos socialistas, você acredita que alguns partidos são mais radicais que os outros para fechar um plano de governo em comum?

Nós somos radicais, mas não somos sectários. Radical é ir à raiz.

Ivan – Primeiro tem que ver o que é radical. Nós somos radicais, mas não somos sectários. Radical é ir à raiz. Essa é a origem da palavra.  O que acabou virando uma palavra que significa extremista, exagerado.

Megafone – Uns parecem ter discurso mais extremistas que outros…
Ivan –
Você sabe que eu não acho. Pode ser a verborragia, pode ser o discurso. Pega o programa que o PSTU apresentou no TSE. Eu tenho ele, você acessa pela própria página do PSTU ou do TSE. É um programa reformista. Começa o seguinte: eles estão pregando a segunda independência nacional; não teve a primeira. Eles colocam o imperialismo como se fosse um inimigo externo. Nós dizemos que ele é um inimigo interno. O Brasil é um país capitalista avançado e desenvolvido. É parte do sistema capitalista. Não é vítima. Pelo contrário. Ele também está sendo imperialista com relação a vários países.

ivan_2109Megafone – O PCB diverge na ação?
Ivan –
A diferença é que nós achamos que a frente de esquerda, a qual estamos chamando de Frente Anticapitalista e Anti-imperialista. Pra nós, ela deve ter como centro os partidos políticos. Por mais que os movimentos sociais sejam importantes, eles são parciais, um cuida só da terra, um cuida só da questão sindical, outro do meio ambiente, da mulher, da luta contra o preconceito. Cada um no seu canto. Não é a soma desses movimentos que vai fazer a revolução. Quem vai fazer a revolução são os partidos políticos revolucionários. Que tem a revolução como totalidade de sua luta e não como parcialidade. E alguns partidos como o PSTU, eles são o que chamamos de movimentistas, eles acham o movimento mais importante que a frente política. Nós valorizamos muito mais uma frente revolucionária. E eles valorizam muito mais criar a Conlutas, que é uma central de movimentos sociais.
 

Megafone – Você acredita que será possível afinar o discurso para uma próxima ocasião?

Os excluídos da mídia — o PCB, o PSTU e o PCO — farão um debate nacional na terça-feira, dia 21 de setembro .

Ivan – Não tenho a menor dúvida. Demos um passo grande. Nós vamos fazer agora, dia 21 de setembro, terça-feira, uma coisa inédita. Os excluídos da mídia — o PCB, o PSTU e o PCO — farão um debate nacional. Como não dá pra ser pela televisão, vai ser pela internet, vai ser organizado pelo jornal Brasil de Fato. Em tempo real, é claro, às 21 horas. Convidamos o Plínio Sampaio, mas ele alegou que não tinha agenda. Talvez o PSOL esteja se sentindo na primeira divisão do campeonato eleitoral; nós somos da segunda divisão. O PSOL não quis se misturar com os nanicos. O Plínio alegou que tem outra agenda, que é um debate num instituto chamado Ethos, de empresários que querem tratar da ética do capitalismo.
O debate contará comigo, pelo PCB, o Zé Maria, pelo PSTU, e o Rui Pimenta pelo PCO. Isso é um gesto que pode germinar uma frente. Não é um gesto pequeno. Nós estamos conversando aqui, e lá em São Paulo está tendo a quinta reunião destes partidos. Não vamos discutir apenas a eleição de 3 de outubro. Para o PCB, a eleição de 3 de outubro é um mero episódio do calendário burguês democrático. Nós queremos é uma revolução social. Não sabemos como ela vai ser. Não estamos propondo luta armada, estou desarmado aqui. Acredito que não é através das eleições que vamos chegar ao poder.

Megafone – O brasileiro sabe exatamente o que é o socialismo?
Ivan – Sabe não. O brasileiro é manipulado todo dia pela televisão. O pensamento único burguês uniformiza as pessoas.

Megafone – E quando ele, o brasileiro, ouve propostas de congelamento do pagamento da dívida, de reforma urbana e agrária, você acredita que ele interpreta de forma errada, como se fosse vítima?

E nós chegamos na TV, no horário eleitoral, e mostramos que tudo aquilo está errado. É para fundir a cabeça do cara.

Ivan – A gente tem tido sucesso com algumas pessoas. Nós tivemos que fazer uma escolha de linguagem, de público-alvo. É uma opção que você tem que fazer. Nós fizemos a opção de buscar um público já consciente, já tendendo a ser militante ou já sendo militante, o qual está decepcionado. Um lutador social que ainda não despertou a importância para a luta política. Que a burguesia também sataniza os partidos políticos e a política partidária, como se fossem iguais. Nós estamos falando para esse público. O povão que está acostumado a todo dia ver na mídia que a economia está uma maravilha e tem fundamentos na economia brasileira que são imutáveis. E nós chegamos na TV, no horário eleitoral, e mostramos que tudo aquilo está errado. É para fundir a cabeça do cara.


ivan_2109gMegafone – Por exemplo, quais são os consensos burgueses na política econômica?
Ivan – Autonomia do Banco Central. É uma cretinice. É a perda da autonomia. Você entrega o Banco Central, que faz a política monetária, para o banqueiro monetário, o Meireles. Ai os caras falam responsabilidade fiscal. Olha o nome. Quer dizer que se eu for contra, eu sou um irresponsável fiscal. Nós somos contra a política do superávit. Você sabe o que é esse nome? O povo ouve e acha um barato. Superávit primário e responsabilidade fiscal são contingenciar gastos públicos para aplicação em problemas sociais, que visa atrair capital estrangeiro para ter lastro para pagar os credores. Isso se chama responsabilidade fiscal. Significa que o Brasil gasta 35% do orçamento para pagar os serviços de juros da dívida. Imagina isso aplicado em saúde, educação, saneamento.

Megafone – Como fazer esta comunicação e levar esta mensagem para a sociedade?
Ivan – O que a gente precisa não é de um partido grande, nem inchado, nem bobo. Precisamos de um partido forte, no sentido de ser formulador, no sentido de fazer as coisas acontecerem. Nós não filiamos pela internet, não estamos procurando ninguém para ser candidato. Nós queremos ser um partido que recruta e forma a pessoa. Mas que também vai crescendo, para ter multiplicadores sociais, agitadores sociais, no sentido leninista da palavra.

 Megafone – O objetivo principal neste momento é ocupar o espaço para fazer o debate?Ivan – Ocupar o espaço, fazer o debate e o contraponto. E falar coisas totalmente diferentes, nas quais nós acreditamos, sem nenhuma conciliação ao voto. Nós não temos um aparelho “votímetro”. “Ah seu falar isso aqui, eu vou perder voto”. Não. Nós falamos o que temos que falar.

Megafone – Ivan, se rolar um segundo turno, qual será a posição do PCB?

O Lula infelizmente está tendo que comer na mão do PMDB para ter a maioria no Congresso Nacional. Por que ele optou pela maioria institucional. Ele podia, em cima dos 60 milhões de votos dele, se valer da institucionalidade popular e social.

Ivan – Em 2006 nos posicionamos da seguinte forma: derrotar Alckmin e continuar em oposição ao governo Lula. Essa que foi a manchete de 2006. Não sei se a gente repete isso. As diferenças estão diminuindo. As diferenças de Lula e Alckmin já não são as mesmas de Dilma e Serra. São quatro anos depois. Quatro anos de mais degeneração do PT. Comprometimento, com toda essa máquina suja do Estado, e agora com um complicador extra, o vice é do PMDB. Ele não é um vice do PMDB qualquer. É o cara que vai ser o mordomo dos interesses do PMDB dentro do governo, é o Michel Temer. O Lula no início do ano tentou fazer um acordo com o PMDB. O Lula infelizmente está tendo que comer na mão do PMDB para ter a maioria no Congresso Nacional. Por que ele optou pela maioria institucional. Ele podia, em cima dos 60 milhões de votos dele, se valer da institucionalidade popular e social. Como o Evo Morales fez. O Evo pegou e está implantando as mudanças com o povo na rua.

Megafone – Nesse possível cenário, os vices são diferentes?
Ivan – Veja a diferença de José de Alencar e Michel Temer. São imensas. O Temer não vai ser um vice como o Alencar, amigo do Lula, fiel, que só reclama de juros e que o Lula pode viajar que ele não reclama. O Temer é um bandito político. É um cara de um dos partidos mais deformados. Pode prestar atenção: o PMDB está em todos os governos, já reparou isso? Ganhe quem ganhar, o PMDB está no governo. Ele apoia um e participa do governo do outro.

Ivan – Sabe como eles escolheram o vice?
Ivan – O Lula chegou e disse: o vice é de vocês, mas quem escolhe o cara sou eu. O PMDB disse: negativo. O vice é nosso e quem escolhe somos nós, e vai ser o Michel Temer, queira você sim ou não. Então, vai ser um vice protagonista.  E a presença do PMDB num eventual governo Dilma vai ser maior do que a atual, que já é enorme no governo Lula, com 6 ministérios, entre os quais, Comunicação e Minas Energia.  Não é uma coisa pequena. Se tivesse um segundo turno, a nossa discussão iria ser muito mais complexa. É claro que a gente não quer a volta dos tucanos. Mas também as diferenças estão diminuindo muito. Quais são as diferenças de Serra e Dilma na questão da política econômica? Não tem.

 Megafone – O que você espera destas eleições?

O PCB já é vitorioso nestas eleições. Primeiro conseguimos mostrar para o Brasil que não morremos. Muita gente confundia a gente com partidos que têm o sobrenome parecido conosco. Mas que não tem nada a ver conosco.

Ivan – Eu prefiro dizer o que o PCB espera. Eu não sou um candidato de mim mesmo, eu sou um candidato de um projeto político. Estou cumprindo uma tarefa partidária. O PCB já é vitorioso nestas eleições. Primeiro conseguimos mostrar para o Brasil que não morremos. Muita gente confundia a gente com partidos que têm o sobrenome parecido conosco. Mas que não tem nada a ver conosco. Hoje o PCB começa a ser visto pela esquerda brasileira com certo interesse. Essa é a grande vitória nessa fase, que nós estamos chamando de reconstrução revolucionária. É o seguinte: as pessoas nos olhavam com certo respeito, mas nos olhavam como residuais, os mico-leões-dourados, o Dom Quixote, que não iam a lugar nenhum. Mas o PCB se reconstruiu em 21 estados. Ele tem um patrimônio que ninguém tem, que é uma história e uma coerência política muito grande. Primeiro a esquerda começa a olhar o PCB com muita atenção. “Olha esses caras não morreram, vão viver e têm muita vida”. Nós estamos sendo procurados por pessoas insatisfeitas com os rumos reformistas e eleitoreiros de alguns partidos, algumas organizações pequenas que existem no Brasil. Nós achamos que uma das vitórias dessa nossa campanha é que a partir dessa eleição nós teremos uma voz mais credenciada no Brasil, mais respeitada. Nós vamos tentar, a partir dessa eleição, a criação de uma frente permanente como um dos objetivos principais da nossa proposta política. Uma frente de esquerda anticapitalista, não uma coligação que se junta na época das eleições. Uma frente que lute nos anos pares e ímpares.

ivan2109jMegafone – Como vencer as leituras equivocadas e mitos que existem em cima do comunismo?
Ivan – Isso é uma parte difícil, porque a manipulação foi muito grande. São décadas de manipulação. A gente entende as razões da manipulação. Já chegaram a dizer até que os comunistas comiam criancinhas. E depois descobriram que são outros profissionais, outros setores da sociedade que comem criançinhas. E eram eles que colocavam a culpa nos comunistas. No passado já foi mais complicado falar de comunismo. Perguntavam: o comunismo não acabou? O comunismo nunca existiu. A não ser de forma embrionária nas sociedades primitivas.

 (MEGAFONE – Wemerson Augusto)

Serviço
PCB Foz do Iguaçu
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E-mail: pcbparana@gmail.com

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